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Mostrando postagens de fevereiro, 2025

Triste Fim da Magia

Num passado não muito remoto Os deuses nos deram tecnologia Desde então o homem se fez devoto Da mais pura forma de magia: A fé na supremacia do progresso E de tantos lucros desenfreados,  Sem considerar o grande regresso  Dos valores humanos estagnados. A magia agora desaparece Enquanto fazem a última prece Para o dinheiro, o deus errado,  Inútil em um mundo acabado.  Papai Noel se afoga  no gelo polar derretido,  E nas florestas queimadas o Saci Pererê é atingido.  A conexão das redes esbarra  nos muros entre as nações, E a expressão do ódio ameaça  as liberdades de expressões.  Num futuro menos remoto ainda Os deuses podem anular sua vinda Por preverem o abismo profundo Que será enfim O próprio fim do mundo.

Nomes de Usuários (III): Procuro Semelhante

Enquanto se afundava em uma cama de bordas infinitas, esforçando-se para distinguir a realidade dos sonhos bons, P. S. sentiu seu corpo em júbilo pela sensação do dever cumprido. Havia acabado de tomar um banho quente, de se perfumar com o aroma das conquistas e de se vestir com a mais sensual das suas cuecas vermelhas. Ainda não acreditava que havia conseguido sair de casa, ao fim de um dia extenuante de trabalho, para caminhar até a academia, e que resistira a todas as suas séries, bem executadas. Ainda teve tempo para algumas trocas de olhares. Sabia que, antes do fim da próxima semana, o loirinho cederia aos seus encantos. Muito provavelmente, no próprio banheiro da academia. Até que gozasse de tal honrosa e desejada companhia, porém, teria de vencer, mais algumas vezes, a sua ocasional falta de disposição. Com a força do tanquinho e da mensalidade. Com um sorriso malicioso engatilhado pela lembrança, P. S. pousou distraidamente a mão direita sobre o peitoral protuberante. E transi...

Cartas para Duda (IV)

Duda,  Lisboa foi para mim um reencontro. Vi de onde o Tejo conduziu desbravadores ancestrais ao Oceano, para fundar nações, mercados e dívidas. E aquilo provocou em mim alguma sensação de pertencimento que há muito não sentia. Apreciava o pôr do sol iluminando o rio com um belo samba nos fones de ouvido, quando notei um velho português com cabelos e barba muito brancos ao meu lado, fazendo menção de falar. Retirei os fones para ouví-lo indagar sobre o que cantavam na música que eu ouvia. Hesitei algum tempo, imaginando se o volume estaria tão excessivamente alto. Ao que ele se adiantou, dizendo que todas as canções eram sempre sobre a mesma coisa. Perguntei se eram de amor. Ele negou. E explicou que todas as canções eram sobre saudade. Depois, repousou seu olhar sobre o ponto mais distante do Tejo que a vista alcançava, deixando que aquela verdade incontestável se assentasse. E contemplamos o tempo em silêncio. Hoje, sinto saudades daquele instante e precisei escrever uma carta qu...

Bandeiras e Despedidas (III)

No princípio,  O amor era princípio, A ordem era base, E o progresso era fim.  No precipício, O amor teve fim,  A ordem virou bandeira, E o progresso também. No resquício, O verde dos vazios, O amarelo das desordens, E o azul dos regressos. No planalto, A desordem central,  Os profetas dissimulados, E os heróis destruídos. No íntimo,  A cultura que pulsa, O progresso que espera,  O amor que sonha. No coração do Brasil,  Uma contradição brilha. Tão grande e tão pequena, A pátria não cabe em nós. No desencontro, Mais de duzentos milhões De corações destemidos urram: Até breve!

Complexos nós

Ele chega desavisado Te deixa extasiado O coração bate  acelerado O olhar brilha apaixonado E o tempo para  eternizado Até que vem a distância.  Sem qualquer elegância ela converte a abundância em silêncio Não adianta tirar uma foto porque já passou a eternidade terminou Qualquer sentimento remoto deveria bastar  Tão forte quanto um terremoto o silêncio se pronuncia  Desejo, ansiedade, apego, idealização: nada disso deveria rimar comigo Mas percebe a mente o que o coração ainda não sente Que o amor emana para todos os lados  E que a gente se engana em restringir O que a gente precisa  nunca esteve fora Aquilo que nos humaniza  E também nos devora  está dentro de nós Complexos nós a serem desatados.

Cartas para Duda (VII)

Duda,  Sei que me calo às vezes, e calado vou ficando. Como naqueles três dias e três noites de carnaval. Mas é por não saber escolher as palavras. Ou canções. É o medo das palavras-flechas, que ferem os alvos, como te feri tantas vezes. Minhas frases sempre caminhavam na tênue linha entre a lapidação e a lápide. Nestes momentos de remorso, olho pela janela e vejo o pequeno pedaço de céu azul que me é acessível. E vejo nas asas dos pássaros e nas nuvens morosas, algo de amoroso, livre e pleno, que não espera nossas frases para existir. Ou resistir. O ciclo da vida pode até ser um alvo das nossas frases de política e capitalismo, mas não das nossas frases de amor, Duda. Ou será que há um pouco de amor na política, no capitalismo, na pandemia? Com amor ou ódio, assim segue a humanidade. Muito se sustenta com silêncios. São as pausas semibreves que também compõem canções. Beijos silenciosos, Sempre seu.

As cores da felicidade

Na minha busca delirante Por felicidade constante Olhei diretamente para o Sol. Vi somente a luz ofuscante  Da perfeição tão intrigante  De gente que nunca encontrei. Quando veio a fragilidade,  Chorei em meio à tempestade Mas logo me disseram pra sorrir. Eis a morte da sanidade A tóxica positividade Que insiste em nos aprisionar. A ciência trouxe o prisma E mesmo sem muito carisma Nos ensinou a ver o Sol em cores. Afastar os ofuscantes sofismas E abraçar sem muitas cismas  O afeto que sempre esteve aqui.

Cartas para Duda (XXXI)

Duda,  Pode acontecer a qualquer hora. Tem vez que é no banho, quando a minha mente se esvai pela janela, como o vapor de água, deixando de ser algo contido e se integrando à amplidão. Se é noite, ela chega ao luar e quer acreditar que você também, de algum outro canto do mundo, menos barulhento, mais agradável. Outras vezes, é mais simples, menos poético, menos metafórico: eu penso que você adoraria assistir essa ficção científica, que compartilharia mil e uma hipóteses absurdas sobre o que o roteiro insiste em esconder da gente. Falaríamos de conspirações, empresas maquiavélicas e a revolta das máquinas. Sim, pode acontecer a qualquer hora. Mas, invariavelmente, acontece: eu penso em você e meu coração se enche de contradição, de amor, de saudade. Será que você também pensa em mim? Beijos cibernéticos, Sempre seu.

Nomes de Usuários (II): Sem Histórico

Nos primeiros minutos do dia seguinte, ao ouvir uma multidão de risos, S. H. se arrependeria profundamente de mais uma tentativa infrutífera de uma incógnita realização. Antes, contudo, que o futuro se convertesse com tudo em um presente, ele agia com uma surda motivação. A ignorada música ao fundo o convidava a dançar. Seus amigos, provavelmente, estariam sentindo a sua falta. Pelo menos dois ou três deles. Mas aquela expectativa imprecisa havia arrebatado a sua alma e o transportado para a fresca área externa, destinada aos fumantes, aos muito bem acompanhados e aos irremediavelmente solitários. Ergueu o telefone ao alcance da vista e abriu o aplicativo com dedos ágeis. Encontrou o motivo de sua exasperação, brilhando em um fundo azul: "Tô te vendo agora, topa ir no banheiro terminar o que a gente começou?" O inconveniente é que S. H. não reconhecia o seu interlocutor, nem fazia a mínima ideia do que havia começado ou se carecia de término. Não havia outras informações que ...
"Sol, sereno, ouro e prata, sai e vem comigo
Sol, semente, madrugada
Eu vivo em qualquer parte de seu coração"
Milton Nascimento | Salomao Borges Filho | Ronaldo Bastos Ribeiro