Cartas para Duda (VII)

Duda, 

Sei que me calo às vezes, e calado vou ficando. Como naqueles três dias e três noites de carnaval. Mas é por não saber escolher as palavras. Ou canções. É o medo das palavras-flechas, que ferem os alvos, como te feri tantas vezes. Minhas frases sempre caminhavam na tênue linha entre a lapidação e a lápide. Nestes momentos de remorso, olho pela janela e vejo o pequeno pedaço de céu azul que me é acessível. E vejo nas asas dos pássaros e nas nuvens morosas, algo de amoroso, livre e pleno, que não espera nossas frases para existir. Ou resistir. O ciclo da vida pode até ser um alvo das nossas frases de política e capitalismo, mas não das nossas frases de amor, Duda. Ou será que há um pouco de amor na política, no capitalismo, na pandemia? Com amor ou ódio, assim segue a humanidade. Muito se sustenta com silêncios. São as pausas semibreves que também compõem canções.

Beijos silenciosos,
Sempre seu.

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"Sol, sereno, ouro e prata, sai e vem comigo
Sol, semente, madrugada
Eu vivo em qualquer parte de seu coração"
Milton Nascimento | Salomao Borges Filho | Ronaldo Bastos Ribeiro