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Mostrando postagens de março, 2025

Nomes de Usuários (V): Sigilo Discreto

Naquela fatídica noite de Lua cheia e um céu sem nuvens, instantes depois de sentir os últimos resquícios do aroma de capim amassado e terra molhada, S. D. assistiria a destruição irreversível de uma vida inteira. Ainda sem imaginar tudo o que poderia ter sido diferente e que jamais voltaria a ser igual, concentrava-se no prazer imediato do desejo desmedido. Atrás do grande e solitário jequitibá-rosa, que fora o seu mais fiel confidente, aguardava impaciente a suposta chegada de um convidado incerto. O capim alto que circundava a parte traseira da grande árvore criava uma clareira oportuna que isolava aquele minúsculo oásis do resto do mundo, restringindo seus segredos aos raros. Ao ouvir passos próximos em meio àquela desolação sem fim, ergueu-se de sua confortável raiz, com um súbito entusiasmo. Não era sempre que seus convidados venciam o temor, a inércia e a incerteza. Esgueirou-se pela pequena passagem lateral, cujo caminho ele mesmo desbravara tantas luas antes.  - Aqui! - an...

Bandeiras e Despedidas (IV)

Agora que estou mais perto do céu, A chuva não cai, ela apenas mora. E o amor que despejei no papel Enche a sala vazia de demora. O adeus que em novembro aceitamos Não nos foi dito, nunca nos foi dado. E quando em outubro nós voamos, O céu era o puro prazer alado. Aqui, morros interrompem o céu, Como quem reivindica uma pausa Do azul do mar, da doçura do mel, Dos protestos dos meninos sem causa. Ouvi contos de quem soube contar Sobre a chuva de lágrimas geladas, A melancolia da sala de estar E das despedidas contrariadas.

Nomes de Usuários (IV): Novinho Safado

Quando entrou distraído no ônibus gelado e com cheiro de desinfetante, N. S. não imaginava que sua primeira visão ficaria eternizada nos mais recônditos lares da memória compartilhada. Um homem de dimensões colossais bloqueava a passagem que o levaria até a sua poltrona. Ele era tão alto, que precisava se entortar um pouco enquanto permanecia de pé, no corredor do ônibus, conversando com o senhor da poltrona de trás. Tinha o cabelo castanho-claro, em uma espécie de corte militar, rente ao couro cabeludo. A barba era curta, da mesma cor e temperamento do cabelo. Usava óculos grandes, destacando seus olhos ansiosos, que pulavam entre as cenas com uma agilidade singular. Usava uma camiseta branca, que destacava seu peitoral robusto e fazia seus músculos dos braços saltarem para fora, grandes e rebeldes. Sua calça bege moldava a cintura com perfeição. Quando vislumbrou N. S. em seu desejo impaciente de passar, deslocou-se ágil e temporariamente para a poltrona ao lado, liberando a passagem...

Cartas para Duda (IX)

Duda,  Já há algumas luas não te escrevo, será que o mar reparou? Acho que eu oscilava entre o receio e a procrastinação. A vida real, que nos despeja obrigações, teses e boletos, abreviava meus sonhos com você. Mas não impedia pequenas doses de ócio, que me proporcionaram algumas inspirações apreciáveis. Uma noite dessas, o luar me fez ver com mais clareza. E enxerguei um dos componentes da fórmula da felicidade. É claro que você sempre foi uma constante. Mas identifiquei naquela noite um propósito que me faltava. Uma variável que passava pela minha ciência, pela minha arte e pela minha nação. E só então entendi que todos esses elementos eram a mesma coisa, indissociável. Isso é uma falha tão humana, Duda. Demasiadamente humana. Dar nomes diferentes para a mesma coisa. E assim achamos que não vamos precisar, algum dia, lidar com aquela complexidade. Doce ilusão. A Lua ria de mim e do tempo que demorei a entender aquela premissa tão lógica e irônica. Por mais que você se distancie...
"Sol, sereno, ouro e prata, sai e vem comigo
Sol, semente, madrugada
Eu vivo em qualquer parte de seu coração"
Milton Nascimento | Salomao Borges Filho | Ronaldo Bastos Ribeiro