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Mostrando postagens de janeiro, 2025

Não há nada mais que possa ser dito

Não há nada mais  que possa ser dito tudo está posto a verdade exposta  o discurso claro a luta transposta a conclusão exata. Não adianta mais crer em mera aposta depositar fichas  na atenção suposta querer com afinco  a ideia oposta. Já se foi o tempo de fazer proposta de mostrar carinho de mostrar que gosta. Porque é preciso gente bem disposta que não apenas espere na encosta que não se conforme com a pena imposta mas que também seja de ação composta. Não há nada mais que possa ser dito não adianta mais esperar resposta porque já passou.

Entre atos e arte-fatos

O primeiro ato  foi curto e um tanto ingrato.  Forçado a me mostrar,  acabei por me ocultar  atrás das cortinas.  Finas cortinas, velhas rotinas. O segundo ato  é o maior e mais divertido relato.  Percorri metafóricas colinas,  verdes e grandiosas campinas.  Cheguei sem esperar nada  e encontrei a arte sagrada  de viver muitas vidas  em tantas ocasiões repartidas: Reis, ratos e portas destemidas,  curiosas senhoras comovidas,  aquele colega de trabalho cretino,  o respeitado senhor assassino,  o pontual capanga dançarino... Tantas histórias tecidas,  emoções sentidas,  provações vencidas,  mostras repetidas,  amostras repetidas,  risadas coloridas  e dolorosas partidas. O terceiro ato  segue indefinidamente abstrato,  pois ensaiar a próxima cena  implica desbravar nova arena. Mas resta a certeza serena  de que a arte faz a vida plena. De longe, o público acen...

Cartas para Duda (XIV)

Duda,  Esta seria mais uma carta como tantas outras que você não leu. Uma daquelas de amor e dor, escrita com o sangue do meu coração partido, entregue por um pombo indiferente a um destino esquecido. Esta carta, talvez, terminaria com uma súplica. Não para que estivesse ao meu lado, ou que me concedesse uma resposta. Uma súplica por um sorriso, talvez, para que eu soubesse que está tudo bem. Ou por um suspiro, tão somente... Esta seria uma carta assim, mas não é. Porque hoje eu ouvi Caetano, e um leãozinho sorriu para mim. Me disse coisas sobre o tempo e os quereres, solidão e política, palavras e poesia. Desculpe, Duda, mas esta acabou sendo uma carta sobre o poder transformador da arte.  Beijos profanos,  Sempre seu.

Nomes de Usuários (I): Quero Mamar

A luz branca, ligada às tantas da madrugada, inundava o quarto de uma ousadia inútil. Mas a possibilidade do sono já estava invariavelmente encerrada, pois Q. M. haveria de ficar estagnado entre o clique do interruptor e o início do sonho. Mesmo com toda a ansiedade das notificações, o inseto que ocasionalmente voava de uma parede a outra era a alma mais viva do quarto. O jovem Q. M. queria muitas coisas. Ou desejava, já não se lembrava mais da diferença. E o abismo entre os dois verbos ampliava-se a cada dia. No início, era o verbo. Agora, era passado. Onde um dia buscou propósitos, já não encontrava nem mesmo migalhas. Era tudo muito confuso, especialmente a dosagem das intensidades. Então, na única ação de verdade daquela madrugada, Q. M. atualizou o feed. Do outro lado do abismo, viu um tórax atraente, com um belo par de mamilos. "Oii, tudo bem?". Com dois is, para parecer diferente. E uma carinha feliz, seria mais simpático. O tórax exigia apenas fotos de rosto e detesta...

Precipitações

Precipitei-me, ignorando a previsão  Saí para caminhar em dia nublado  Precipitou-se o céu sobre o chão  Molhando tudo o que foi tocado  E de imediato disparou meu coração  De relâmpago e trovão, assustado  Caminhada virou corrida de supetão  Como se já não estivesse encharcado  Corria entre árvores e ruas, perdido  Essas ruas espertas me viam distraído  E aproveitavam para mudar de lugar  (Estranha capacidade de se rearranjar)  Então, Milton cantava no meu ouvido  Nuvem cigana, Nascimento querido,  Sobre deixar o coração bater sem medo  E dança, movimento, mudança de enredo  Ainda com medo, meu coração tem batido  Mesmo na face da incerteza, com convicção  De que dançar na chuva desprotegido  É melhor do que silenciar o coração.

Para Pepe Mujica

No novo milênio, no Novo Mundo,  Num banco da chácara em Montevidéu, O velho camponês admira o céu Cuida dos cães e toma seu mate  Lembrando dos dias de combate  Seus olhos reveem a guerrilha urbana  Em luta contra a opressão tirana  E as lições de tantos anos de solidão Encarcerado e condenado à reflexão  Acumulando ferimentos e outras fatalidades  E entendendo como viver de simplicidades  Ensina ao povo o código das flores E retransmite a natureza das cores  Vai ser presidente em seu fusca azul  E transforma a América do Sul  Adverte a sociedade do consumo material  De que toda transformação é cultural. Grácias, Pepe, querido, por tanto!  Serás eterna fonte de inspiração e espanto!  Agora, vai com Lucía ouvir um tango manso Que todo guerreiro merece o seu descanso.

Sustenido sustento

O vento brincava com as folhas que a chuva derrubara. Discordava de sua quietude e introduzia um movimento qualquer. Cores tristes passavam diante dos olhos do homem: amarelo, vermelho, marrom. No céu, não havia espaço para o azul e o cinza era majoritário.  Um espelho do coração.   Tudo estava pronto.   A pequena casa de madeira se erguia no alto de uma colina.  Onde tudo começou. E onde tudo terminaria.  A grama, ao redor, era apenas um resquício amarelado da exuberância de antes. Algumas árvores circulavam o casebre, já desprovidas das folhas que a chuva e o vento reivindicaram. Em frente, a grande mangueira desfolhada do balanço impunha-se. A corda e a tábua ainda pendiam de um de seus galhos, mas a podridão atacara irreversivelmente a ambos.  Não faz mal, já não temos crianças.   No horizonte e além, mais colinas disputavam a terra. Nelas, estendiam-se capões, cercas e cupinzeiros. Fora isso, apenas a horta e a estrada de terra quebravam a monoton...

Carta para Duda (XIII)

Duda, Escrevo em mais uma noite sem estrelas e sem o seu sorriso. As previsões meteorológicas são catastróficas por aqui e agradáveis para o resto do país. Espero que você tenha estrelas por aí e consiga ver a lua. Se estiver no mar, pule quantas ondas precisar. Eu acredito pouco na magia das superstições, mas muito na magia das intenções. E sei que todo passo novo seu foi em direção ao seu propósito de vida. A sua lembrança me inspira todos os dias a tentar descobrir quem sou eu. Quando e onde quer que seja o seu caminho, siga em frente com a certeza de que existe alguém (sob um céu sem estrelas) que te ama muito. Felizes beijos novos, Sempre seu.
"Sol, sereno, ouro e prata, sai e vem comigo
Sol, semente, madrugada
Eu vivo em qualquer parte de seu coração"
Milton Nascimento | Salomao Borges Filho | Ronaldo Bastos Ribeiro