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Mostrando postagens de abril, 2025

Cenas do interior (I): Procissão

A noite se assentou descomedida, indiferente ao tédio inocente do jovem Léo, que trocava frações de tempo por figurinhas repetidas de um álbum antigo. Sua juventude contrapunha o passado como uma faca. Era ainda tão jovem, e já recebia visitas, geralmente nas noites de sexta-feira, do fantasma de uma mulher melancólica. Naquela noite, ele sabia que a mulher de olhos pretos lacrimejantes não viria. Até porque era quarta e ele deixara seu quarto, local em que habitualmente se encontravam em silêncio, e viera fazer companhia para a avó. Desde a sua última queda, quando subira em um banco pouco confiável para alcançar o pote de açúcar no alto do armário e quebrara alguns ossos já tão desgastados (como a vida), a família decidiu que a velha nunca mais dormiria sozinha em casa. Quando os maiores começaram a se cansar da rotina e a se refugiar nas obrigações domésticas e conjugais, passaram a enviar os menores em seus lugares. Léo assumiu as quartas-feiras com gosto, a avó sempre entornava ne...

Quem me dera escrevesse canções

Quem me dera Escrevesse canções Que se ouvissem Na boca do povo Unissem nações E que servissem Como algo novo Como se vissem Na face do rosto O melhor gosto Da doce infância Chocolate ao leite Sonho em abundância Um eterno deleite Rimas desordenadas Em vaga alternância Mas bem colocadas Na coleira do cão Na ração do gato Na fatia de pão Nas asas do pato Na jarra da memória No auge da glória No espelho da mente No pote das emoções Na curva do tempo Que enfim retornaria Ao hipotético dia Em que finalmente Após grande espera Escrevesse canções Quem me dera

Está tudo bem

Está tudo bem  E vem tanta coisa aí  Amores e dores  De cores diversas  As lutas e promessas  O melhor daqui  Tudo está bem  E vem coisa daí  Vem você também  Reconhece o dom  E faz uma prece  Que vem algo bom  E está bem tudo  E vem é daqui  O desejo mudo  A melhor lembrança  Dessa nossa dança  Que não terminou  Nem tudo vai bem  Ainda estou lá  Meio ao seu lado  Meio de ninguém  Voo mal sucedido  Coração alado  Tudo aqui vai bem  Mais fácil dizer  Arfo resignado  Ao meu bem querer  Jamais possuir  Só sobreviver  Muito obrigado  Está tudo bem
"Sol, sereno, ouro e prata, sai e vem comigo
Sol, semente, madrugada
Eu vivo em qualquer parte de seu coração"
Milton Nascimento | Salomao Borges Filho | Ronaldo Bastos Ribeiro