Cenas do interior (I): Procissão
A noite se assentou descomedida, indiferente ao tédio inocente do jovem Léo, que trocava frações de tempo por figurinhas repetidas de um álbum antigo. Sua juventude contrapunha o passado como uma faca. Era ainda tão jovem, e já recebia visitas, geralmente nas noites de sexta-feira, do fantasma de uma mulher melancólica. Naquela noite, ele sabia que a mulher de olhos pretos lacrimejantes não viria. Até porque era quarta e ele deixara seu quarto, local em que habitualmente se encontravam em silêncio, e viera fazer companhia para a avó. Desde a sua última queda, quando subira em um banco pouco confiável para alcançar o pote de açúcar no alto do armário e quebrara alguns ossos já tão desgastados (como a vida), a família decidiu que a velha nunca mais dormiria sozinha em casa. Quando os maiores começaram a se cansar da rotina e a se refugiar nas obrigações domésticas e conjugais, passaram a enviar os menores em seus lugares. Léo assumiu as quartas-feiras com gosto, a avó sempre entornava ne...