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Mostrando postagens de dezembro, 2024

Beijo

Beijo, beijo, beijo. Beijo muito, beijo já sem medo. Beijo um, dois, três, quatro Beijo em público e em segredo. Beijo na rua, beijo no meu quarto. Beijo à toa, beijo sem apego. Beijo quando eu chego, beijo e parto. Beijo sem porquê, beijo sem enredo. Beijo na balada, beijo no carnaval. Beijo muito, muito, quando eu bebo. Beijo como humano, beijo como animal. Beijo, beijo, beijo. Beijos incógnitos, beijos flácidos. Beijos quaisquer, beijos plásticos. Beijo tanto, que me perco em tanto beijo. Beijo sempre, até quando eu não quero. Beijo, beijo, beijo... Mas onde foi que larguei O meu beijo sincero?

Bandeiras e Despedidas (II)

Não chorei nas inúmeras despedidas Sorri impassível diante das partidas E mesmo com tantos mundos em colisão O meu coração seguia são e salvo (Como em um terremoto no Japão) Deixei tudo acontecer em sucessão  Sem freios e com uma tímida objeção E então vieram chuva, bagagens, boletos A gota escorrendo na janela como lágrima Fazendo o ônibus chorar atrasos e lástimas  Marcando a pausa indefinida dos duetos Que (outrora) preencheram o cômodo vazio  Desprovido de seus objetos, risos e sorrisos Sentenciado à renovação e ao extravio Ainda assim a estrada seguia em linha reta Como quem foge do cliché dos ciclos E os condena fatidicamente como um profeta  Que inevitavelmente retorna do fim ao início E chora enfim como se fosse um poeta.

24/12/24

A data de hoje é Particularmente simétrica Tendo dia e ano Espelhados pelo mês Como numa grande Constatação profética De que todos os dias do ano Passaram de uma só vez.

Além da janela

A máfia bósnia o perseguia. Crianças sem nomes não desviavam o olhar de sua janela. Tudo o que podia fazer era apreciar a beleza dos raios de sol que entravam sorrateiramente e iam tocar o chão. A água chegava suja, a energia fora cortada, os suprimentos quase acabavam. Apesar de tudo, restava a internet. Postava fotos antigas, de amigos, mulheres e bebidas, fingindo que eram de então. A internet era a sua memória e o mantinha vivo. Privado de todo o resto, não podia abdicar a verdadeira extensão da alma humana. As crianças sem nome, às vezes, jogavam pedras. Quase agradecia por, enfim, poder sentir algum tipo de movimento. Mas jamais chegaria perto da janela e dos raios. A máfia bósnia o perseguia e as crianças sem nome tinham fuzis. Postou outra foto. Recebeu comentários e aprovações. Cultivou toda a superficialidade de que tinha direito. Fora dali, não havia vida. Apenas os raios solares, as crianças bósnias e a máfia sem nome. Uma pedra entrou pela janela. E veio a escuridão. Os ra...

O que é a vida?

Se me perguntassem o que é a vida Diria com cautela: a dúvida repetida O eterno retorno de ascensões e ocasos Vocativo afetivo e sucessão de acasos A ocasião de enxergar o outro, renascida O reencontro além, sem espaços, com prazos Um entardecer, uma ventania, uma alvorada Juventude e velhice. Brisa e revoada.

Serra dos Órgãos Contemplativos

Aqui do alto da serra das realizações parciais, iluminado pelo sol poente e acariciado pelos últimos suspiros da estação que nos deixa, eu contemplo em silêncio o horizonte errante dos corações nômades. Uma imagem que, à primeira vista, não parece se mover. Mas que abriga perspectivas e profundidades em cada pixel .   Sem o mesmo brilho da hora dourada, a memória percorre espaços que já habitei, e reencontra sorrisos com que já sorri. Cenas parcialmente nebulosas, distantes do rigor cronológico, elencam o primeiro e o último amor, os amores instantâneos e os inatingíveis, os perdidos e os reencontrados, os sinceros e as ilusões. Enquanto o sol aquece a pele, o coração selvagem é aquecido pela lembrança de amigos e amigas que nos cativamos. As amizades inesperadas, as plausíveis, as óbvias. Aquelas que ofereceram hospitalidade e também colo. Os abraços de duração variável que significam o mundo.   O horizonte indomável também causa arrepios. Afinal, quem tantas vezes já partiu,...
"Sol, sereno, ouro e prata, sai e vem comigo
Sol, semente, madrugada
Eu vivo em qualquer parte de seu coração"
Milton Nascimento | Salomao Borges Filho | Ronaldo Bastos Ribeiro