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Ser humano

Já faz muito e bastante tempo que navegando mares e lares diversos, tenho procurado palavras discretas para descrever os meus universos e atingir enfim o autoconhecimento. Aquelas palavras muito seletas, tímidas, precisas e categóricas, a verdadeira tradução do pensamento como grandes revoluções históricas reduzidas a infinitos particulares. Sigo procurando no momento o perfeito rótulo conciliatório para todos os tipos de lugares o ingresso para o pertencimento e a suficiência pacífica do oratório. Como o artista com seus malabares e cada brasileiro com sua corda bamba equilibrando boletos e acontecimentos dividindo sentimentos e rodas de samba sigo perseguindo um futuro soberano para um dia dançar no marco civilizatório das identidades parciais de ser humano.

Microcontos (II): Telegrama

Sou eu, aqui do fim do mundo. Percorri o labirinto profundo dos anagramas do seu nome. Vi as crianças que têm fome e os homens que lutam com histogramas. Lembrei dos seus programas, dos seus cachos e do pôr do sol na grama. Alguém que muito te ama te contou em um conto que não cabe em um telegrama.

Microcontos (I): Seu Aristeu

Seu Aristeu vivia com pressa. Nasceu, cresceu, namorou, casou e enviuvou em uma única frase. Em vida, sempre correu atrás do vento. Na véspera do fim, um vendaval levou suas memórias em um piscar de olhos. Quando a Morte veio, apressada, negou-lhe mais tempo. Acabou morrendo depressa e de pressa.

Equinócio

A brisa úmida do futuro Tocou meu rosto duro com delicadeza E a beleza do desconhecido Conheceu o meu destemido presente O bem-te-vi e o quero-quero Ecoaram verbos despretensiosos Percorrendo azuis minuciosos E aterrizando em um verde sincero Nós sorrimos criativos no ócio Com curativos para dores de amores diversos Dispersos entre as nuvens do equinócio Universos cíclicos na estação das flores O tempo voltou a ser o que era Geológica era, mitológica quimera,  E a utopia da Justiça em seu vale profundo O norte fecundo que nos move em frente Girou novamente a roda do mundo.

Bandeiras e Despedidas (V)

No ponto mais oriental das Américas A poucos passos da rosa dos ventos  Em frente ao mar de rotas homéricas  Atrás das telas coletoras de momentos  Os transeuntes viram nascer o Sol  Refletindo a fluida imensidão azul  Tocando o Cabo Branco do Farol  Colorindo nuvens de Norte a Sul  Do mastro, em tons pretos e vermelhos,  A bandeira hasteava negação  Emitia do passado os conselhos  E afirmava no presente o coração

Nomes de Usuários (VI): Com Local

Após trinta e oito anos de uma vida de segredos e restrições, C. L. adquiriu um emprego estável, um imóvel financiado e a sua primeira D. S. T. Enquanto ingeria a última pílula de antibiótico, por uma combinação de desatenção crônica e conservadorismo hereditário, sentiu uma inexorável necessidade de formular seu propósito de vida. Que fosse uma frase com um único verbo e várias boas intenções. Algo que preenchesse o apartamento novo, repleto de quadros velhos e alguns vazios. Mas adiou o significado maior quando o menor desejo prevaleceu. No auge da indecisão entre tantas possibilidades catalogadas, escolheu aquela rara combinação de sensualidade pungente e a vaga promessa de carinho. Trocou fotos, flertes e coordenadas. O local seria o seu, com muito orgulho. Guardou o edredom limpo no guarda-roupas, deixando apenas o lençol azul-escuro na cama de casal em que dormia sozinho todos os dias. Apertou alguns botões e ligou a luz vermelha do quarto. Borrifou capim-limão e vestiu entusiasm...

Cenas do interior (II): Fogo

O canto do bem-te-vi anunciou que bem se via o fim de mais um dia na secura invernal do cerrado. Os tons amarelados, terrosos e pesarosos autenticavam a solidão não apenas anunciada, mas voluntariamente escolhida. Como diziam os antigos, o céu tomado pelos tons de fogo indicava que vinha uma noite muito fria, talvez até geada. O que os antigos não faziam era avisar quando se esquecia um bom chapéu em lugar fora de mão. De tal modo que, graças a um lampejo da limitada memória própria, o velho vaqueiro se viu obrigado a descer a colina até a casa antiga, agora abandonada, para recuperar o objeto que lhe faria tanta falta na lida do dia seguinte. Naquela manhã, havia passado pelas ruínas do lugar em que nasceu, cresceu e se fez homem, para alimentar os cães que insistiam em viver junto aos escombros do passado. E, depois de acariciar a barriga do Branquinho, já todo sujo de terra seca, esquecera de recuperar seu chapéu de palha esteticamente questionável, mas completamente funcional, que ...
"Sol, sereno, ouro e prata, sai e vem comigo
Sol, semente, madrugada
Eu vivo em qualquer parte de seu coração"
Milton Nascimento | Salomao Borges Filho | Ronaldo Bastos Ribeiro