Nomes de Usuários (III): Procuro Semelhante
Enquanto se afundava em uma cama de bordas infinitas, esforçando-se para distinguir a realidade dos sonhos bons, P. S. sentiu seu corpo em júbilo pela sensação do dever cumprido. Havia acabado de tomar um banho quente, de se perfumar com o aroma das conquistas e de se vestir com a mais sensual das suas cuecas vermelhas. Ainda não acreditava que havia conseguido sair de casa, ao fim de um dia extenuante de trabalho, para caminhar até a academia, e que resistira a todas as suas séries, bem executadas. Ainda teve tempo para algumas trocas de olhares. Sabia que, antes do fim da próxima semana, o loirinho cederia aos seus encantos. Muito provavelmente, no próprio banheiro da academia. Até que gozasse de tal honrosa e desejada companhia, porém, teria de vencer, mais algumas vezes, a sua ocasional falta de disposição. Com a força do tanquinho e da mensalidade.
Com um sorriso malicioso engatilhado pela lembrança, P. S. pousou distraidamente a mão direita sobre o peitoral protuberante. E transitou do sorriso para os lábios semicerrados, enquanto a mão tomava a inciativa de explorar a imensidão do tórax. Sentiu a pele eriçada em reposta ao toque delicado, com uma mão descendo pelo caminho da felicidade, enquanto a outra contornava o bíceps oposto. Em posse daquele pequeno prazer regado a endorfinas, virou de lado, enquanto fechava os olhos e unia as mãos na proximidade do coração. Ali, sentiu algo que o fez aproximar seus pés e deslizar um sobre o outro, devagar, carinhoso. Apertou os braços, como num abraço que replicava a desvanecente lembrança de anos atrás. E sentiu a nuca arrepiar com um beijo fantasma.
Todos os volumosos músculos do corpo de P. S. se contraíram ao mesmo tempo, em seu esforço repentino de se virar na cama e nas recordações. Resistiu com afinco ao aprofundamento do afeto distante e ao afundamento físico que o adormeceria antes de sua ingestão imperativa de proteína. Levantou de uma vez e seguiu seminu para a cozinha. Separou inúmeros ovos para o cozimento, imaginando em quantas gramas de massa muscular eles se transformariam.
Com os preparos proteicos encaminhados, restava alguma espera, que ocupou com o celular. Ignorou algumas mensagens da família, dos amigos e, especialmente, do chefe. Apagou notificações de notícias após ler as breves manchetes. Algo sobre inteligência artificial na China, o governo que não sabia se taxava ou não, a oposição que tinha certeza, guerras, crises, e a atriz premiada. Sorriu de satisfação pela atriz premiada. E foi para o aplicativo de pegação.
Uma tonelada de perfis sem foto flertavam com seu tórax bem definido. Um queria sexo a três, outro queria mamar, outro queria no carro, outro no mato, outros tantos anônimos disseram um econômico oi. Lamentou as abordagens descuidadas e bloqueou um atrás do outro. Concentrou-se no "Sigilo Discreto" que, apesar de não ter fotos no perfil propriamente dito, compartilhou toda a sua corpulência e beleza no privado. A pele escura, brilhante, e os olhos masculinos, determinados. Começou a conversa na expectativa de, muito em breve, solicitar educadamente os nudes. Sentiu um enorme potencial.
Verificou mais uma vez a comida. Os ovos já estavam cozidos, faltava esquentar o frango e a batata doce. Ligou o micro-ondas, como se fosse novidade, e retornou ao labirinto. Mas os confusos caminhos digitais não o levaram ao belo e sigiloso rapaz cuja resposta aguardava. De repente, estava mais uma vez diante da foto de péssima resolução de um perfil que não ficava online há 11 dias. Olhando aquela foto sem definição, 11 dias atrás, estivera a segundos de bloquear, antes de ler a cantada mais engraçada que já havia recebido. Incrédulo, respondeu de forma protocolar. E acabou rindo e refletindo sobre coisas que jamais cogitou. Ali, P. S. não viu definição, mas viu um senso de humor e perspicácia incomuns. Em pouco tempo, palavras viraram sons, e a relação virtual se estreitou, sem jamais desaguar em lugares comuns. Até que, um dia, desaguou em silêncio.
O que ele não imaginava ainda, enquanto começava a quebrar a casca dos ovos, é que os 11 dias se converteriam em muitos outros. No octogésimo sexto dia, após uma exaustiva rotina de malhação que faria os joelhos de P. S. reclamarem, aquela foto sem resolução sumiria por completo, deixando um perfil vazio, offline e inacessível, como se fosse um erro do sistema. Instantes após essa terrível percepção, ou mesmo antes dela, o perfil já não poderia mais ser encontrado, provocando em P. S. a dolorosa sensação de que aquilo havia sido uma vontade tão forte, que se converteu em sonho.
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