Nomes de Usuários (II): Sem Histórico

Nos primeiros minutos do dia seguinte, ao ouvir uma multidão de risos, S. H. se arrependeria profundamente de mais uma tentativa infrutífera de uma incógnita realização. Antes, contudo, que o futuro se convertesse com tudo em um presente, ele agia com uma surda motivação. A ignorada música ao fundo o convidava a dançar. Seus amigos, provavelmente, estariam sentindo a sua falta. Pelo menos dois ou três deles. Mas aquela expectativa imprecisa havia arrebatado a sua alma e o transportado para a fresca área externa, destinada aos fumantes, aos muito bem acompanhados e aos irremediavelmente solitários.

Ergueu o telefone ao alcance da vista e abriu o aplicativo com dedos ágeis. Encontrou o motivo de sua exasperação, brilhando em um fundo azul:

"Tô te vendo agora, topa ir no banheiro terminar o que a gente começou?"

O inconveniente é que S. H. não reconhecia o seu interlocutor, nem fazia a mínima ideia do que havia começado ou se carecia de término. Não havia outras informações que o pudessem ajudar. O perfil não tinha fotos, o nome não tinha palavras, e um 21 solitário podia ser tanto idade, quanto comprimento. A distância de zero metros só servia para assustar. E o álbum privado tinha apenas órgãos genitais anônimos, ainda que de uma grande riqueza estrutural e estética.

A irrecuperável perda de cruciais informações era a desvantagem evidente de seus intermináveis ciclos de rupturas e reconciliações com o aplicativo, embora muita informação fosse o que menos importava na era da informação e dos amores líquidos. Mas aquele era o preço razoável que S. H. se dispunha a pagar para se ajustar às suas necessidades espirituais. Além disso, esperava, inutilmente, que as pessoas lessem a sua abundância de informações e entendessem a sua necessidade de diálogo e contexto, bem como a sua periódica e anunciada amnésia virtual.

Enquanto vasculhava com atenção as fotos dos órgãos genitais, em busca de qualquer vislumbre do passado que o remetesse a uma identidade, e atento a qualquer insistência de seu interlocutor que pudesse revelar mais detalhes, a música parou e as pessoas começaram a ecoar números em uníssono. Agora iluminado por múltiplas cores vindas do céu, S. H. continuou imerso em sua implacável atividade investigativa e, preso a velhos hábitos, não percebeu que já era ano novo.

Comentários

  1. Senti a angústia de S. H daqui, ao mesmo tempo em que o vemos ser preenchido por uma sensação de solidão e o vazio do app-açougue.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Gostei de como o conto soa como uma passagem. Algo sem começo meio e fim, só um recorte de um momento.

      Adoro como os detalhes revelam mais que uma história, mas quem é o protagonista

      Excluir

Postar um comentário

"Sol, sereno, ouro e prata, sai e vem comigo
Sol, semente, madrugada
Eu vivo em qualquer parte de seu coração"
Milton Nascimento | Salomao Borges Filho | Ronaldo Bastos Ribeiro