Cenas do interior (II): Fogo
O canto do bem-te-vi anunciou que bem se via o fim de mais um dia na secura invernal do cerrado. Os tons amarelados, terrosos e pesarosos autenticavam a solidão não apenas anunciada, mas voluntariamente escolhida. Como diziam os antigos, o céu tomado pelos tons de fogo indicava que vinha uma noite muito fria, talvez até geada. O que os antigos não faziam era avisar quando se esquecia um bom chapéu em lugar fora de mão. De tal modo que, graças a um lampejo da limitada memória própria, o velho vaqueiro se viu obrigado a descer a colina até a casa antiga, agora abandonada, para recuperar o objeto que lhe faria tanta falta na lida do dia seguinte. Naquela manhã, havia passado pelas ruínas do lugar em que nasceu, cresceu e se fez homem, para alimentar os cães que insistiam em viver junto aos escombros do passado. E, depois de acariciar a barriga do Branquinho, já todo sujo de terra seca, esquecera de recuperar seu chapéu de palha esteticamente questionável, mas completamente funcional, que ...