Nomes de Usuários (V): Sigilo Discreto

Naquela fatídica noite de Lua cheia e um céu sem nuvens, instantes depois de sentir os últimos resquícios do aroma de capim amassado e terra molhada, S. D. assistiria a destruição irreversível de uma vida inteira. Ainda sem imaginar tudo o que poderia ter sido diferente e que jamais voltaria a ser igual, concentrava-se no prazer imediato do desejo desmedido. Atrás do grande e solitário jequitibá-rosa, que fora o seu mais fiel confidente, aguardava impaciente a suposta chegada de um convidado incerto. O capim alto que circundava a parte traseira da grande árvore criava uma clareira oportuna que isolava aquele minúsculo oásis do resto do mundo, restringindo seus segredos aos raros.

Ao ouvir passos próximos em meio àquela desolação sem fim, ergueu-se de sua confortável raiz, com um súbito entusiasmo. Não era sempre que seus convidados venciam o temor, a inércia e a incerteza. Esgueirou-se pela pequena passagem lateral, cujo caminho ele mesmo desbravara tantas luas antes. 

- Aqui! - anunciou com uma voz grossa e firme, para a silhueta magra e pálida, que quase tomava o caminho errado.

Quando ele se virou, seus olhos acinzentados brilharam distintos na cena escura, como se fossem os únicos alvos dignos de serem iluminados pelo luar. Seu sorriso nervoso foi o mais apropriado possível para um primeiro encontro clandestino. O convidado caminhou hesitante em direção ao mato, à grande árvore e à misteriosa figura de músculos apreciáveis que o acolhia em seu esconderijo.

O jequitibá-rosa testemunhou mais um fugaz encontro de almas. A pele escura de S. D. mesclou-se em perfeita complementaridade com a palidez de seu convidado, aclamando o majestoso equilíbrio do Yin e Yang ocidental. Inicialmente em pé, os dois homens dançaram colados em movimentos ritmados por um acordo não verbal. Depois, S. D. sentou-se apoiado na raiz mais estável da grande árvore, para que seu convidado encontrasse a base sólida e irresistível para idas e vindas no êxtase sensorial. Ambos chegaram juntos ao destino torrencial da experiência, com a respiração ofegante dos marinheiros solitários de mares revoltos, banhados de água e sal. 

Com o sangue irrigado de satisfação e hormônios, bem como um sigiloso sorriso no rosto másculo e realizado, S. D. resolveu acompanhar o seu convidado de primeira viagem até a segurança da pequena praça. Não era esse o seu curso de ação preferido, acostumado à precaução das saídas espaçadas que ludibriariam seus hipotéticos perseguidores. Mas havia algo de frágil e bondoso em seu convidado, que despertava de forma inédita o seu senso de cuidado. Saíram juntos do mato úmido e caminharam por ruas escuras e desertas em silêncio, sem trocar nomes ou anseios. No íntimo discreto de cada um, apenas as expectativas de eventualmente repetirem o prazer compartilhado. 

Enquanto trocavam lentamente a escuridão do sigilo pela luminosidade da praça, S. D. olhou rapidamente seu telefone. Inúmeras notificações daquele mesmo aplicativo que o trouxera até aquele momento de felicidade brilhavam, irrelevantes. Notícias do país e do mundo, promoções imperdíveis que ele perderia sem pestanejar, e uma quantidade preocupante de ligações de casa. Franziu a testa, ponderando sobre pertinências e possibilidades, enquanto seu companheiro transitório começava a balbuciar um assunto qualquer para quebrar o silêncio. Alheio a quase tudo, exceto ao temor incerto que se instalava em sua mente e ao arrependimento pelo descuido inédito que tivera naquela noite, S. D. ergueu seus olhos em direção à praça. Enquanto o seu convidado exposto ria de algo que ele mesmo havia dito, a esposa de S. D. o esperava logo em frente, cheia de lágrima e rancor, acompanhada de duas crianças pequenas que acenavam, inocentes, e uma vizinha fofoqueira com olhos acusadores.

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