Nomes de Usuários (IV): Novinho Safado

Quando entrou distraído no ônibus gelado e com cheiro de desinfetante, N. S. não imaginava que sua primeira visão ficaria eternizada nos mais recônditos lares da memória compartilhada. Um homem de dimensões colossais bloqueava a passagem que o levaria até a sua poltrona. Ele era tão alto, que precisava se entortar um pouco enquanto permanecia de pé, no corredor do ônibus, conversando com o senhor da poltrona de trás. Tinha o cabelo castanho-claro, em uma espécie de corte militar, rente ao couro cabeludo. A barba era curta, da mesma cor e temperamento do cabelo. Usava óculos grandes, destacando seus olhos ansiosos, que pulavam entre as cenas com uma agilidade singular. Usava uma camiseta branca, que destacava seu peitoral robusto e fazia seus músculos dos braços saltarem para fora, grandes e rebeldes. Sua calça bege moldava a cintura com perfeição. Quando vislumbrou N. S. em seu desejo impaciente de passar, deslocou-se ágil e temporariamente para a poltrona ao lado, liberando a passagem.

Quando o ônibus começou a rodar os primeiros metros de seu percusso, N. S. já havia se acomodado com segurança na poltrona, mas ainda se incomodava com a própria indecisão sobre a trilha sonora. Enquanto sua mente ponderava entre samba e rock, desviou o olhar da tela e, displicentemente, focou no enorme homem de minutos atrás. Agora, ele estava sentado na poltrona da outra fileira, de modo que N. S. o vislumbrava em sua diagonal esquerda. A forma como ele cravava sua bota marrom no apoio da poltrona da frente, lhe conferia certo ar de dominância. O joelho elevado lhe servia de suporte para um livro, que lia com vigor e onde fazia anotações ocasionais com uma caneta vermelha. N. S. não podia deixar de imaginar que o homem tinha uma personalidade imponente, enquanto refletia sobre qual livro seria aquele, fonte de ideias tão interessantes, que mereciam ser anotadas no próprio livro.

O processo decisório musical fora tão complexo, que N. S. não notara o por-do-sol, nem o apagar das luzes do ônibus. Com todos imersos na escuridão, apenas o brilho dos celulares iluminava os rostos solitários dos viajantes. Quando finalmente optou pela trilha sonora no modo aleatório, que acabou trazendo alguns tambores e violinos épicos de algum filme de ação, N. S. se sentiu pronto para iniciar a sua caça. Tinha plena consciência de que nada poderia prosperar enquanto o caçador se distanciava do alvo a uma velocidade constante, já que o ônibus havia trocado paisagens urbanas por estradas vazias. Mas, experiente naquelas artes, ao contrário do que o seu nome de usuário pudesse sugerir, N. S. se contentaria mesmo com um flerte virtual naquele início de noite atípico.

Foi com singular surpresa que notou, no aplicativo, um perfil sem foto a zero metros de distância, por mais que o ônibus se distanciasse mais e mais de qualquer ponto fora daquela realidade escura e gelada. A incredulidade o distraíra de tal modo, que não notou o vulto de um homem corpulento mudando para a dupla de poltronas à sua frente. De qualquer modo, era justamente naquela corpulência que ele começou a pensar, diante daquele perfil sem nome e sem rosto. Uma esperança incerta, desejosa e pessimista preencheu plenamente os seus pensamentos confusos.  

De repente, brotou um número em fundo amarelo no perfil sem rosto, sinalizando uma nova mensagem. O coração de N. S. começou a bater mais rápido, com a perspectiva de descobrir se o perfil misterioso era realmente de quem gostaria que fosse. Nesse momento, sua mente projetou um curta metragem para a seleta audiência de si próprio, estrelando todos os amores rápidos que viveu, adensados em poucos anos de liberdade sexual. A maior parte era de grandiosas decepções, que popularam a sua trajetória e moldaram a sua intuição a hesitar sempre que possível. Mas havia também os momentos cinematográficos de êxitos, merecedores das grandiosas premiações, que o ensinaram a perseverar e confirmaram a sua identidade. O difícil era reconhecer oportunamente que tipo de cena estava vivendo.

"Vem aqui pro banco da frente", brilhava a mensagem em letras pretas, sobre um fundo azul.

Neste momento, o jovem teve dúvidas se faria jus ao seu nome de usuário e atenderia àquele pedido direto. Aquela mensagem desprovida de pontuação poderia nem ser do autor que imaginava, afinal. Foi quando viu emergir um enorme braço acima da poltrona, como quem descontraidamente apoiava a cabeça numa posição mais confortável. A enorme mão invadiu a mente de N. S. em diversas configurações de uso e não lhe deixou alternativas. Em um movimento ágil e surpreendentemente preciso, com o apoio fortuito do bagageiro acima, pulou para a poltrona da frente.

A troca de olhares foi suficiente. Expectativas converteram-se em realidade de forma implacável. Sem pronunciarem uma palavra, entenderam por que estavam ali, naquele momento, imersos na escuridão e na tensão, com os corações acelerados. Desviando brevemente o olhar para verificar o perímetro, N. S. entendeu que os únicos passageiros em seu campo de visão estavam dormindo, inclusive o ex-vizinho do homem corpulento, ao lado da poltrona vazia em que antes ele estivera. Alguns segundos depois, ao retornar seu olhar para o rosto do homem, entendeu que a sua determinação era inabalável. Apensar de ainda serem olhos ansiosos, agora eles estavam fixos em seu propósito.

Gentilmente, o homem direcionou a mão do rapaz até o seu colo. Automaticamente, o rapaz apertou a própria mão contra a enorme protuberância que emergia daquela calça, confirmando o interesse de que antes duvidara. Quando ergueu seu olhar para encontrar o do homem, com os lábios semicerrados em hesitação, encontrou olhos ainda ansiosos, mas também imperativos. O homem balançou, sutilmente, a sua cabeça para cima e para baixo, enquanto empurrava a mão do rapaz para dentro da própria calça. Ali, N. S. se perdeu em explorações táteis, desembrulhando e reembrulhando o presente que tinha entre as mãos. Às vezes, usava o polegar para desenhar pequenos círculos no topo, até que ele ficasse molhado, quando voltava aos movimentos repetitivos anteriores. O homem se ajeitava na poltrona ocasionalmente, e N. S. podia sentir a pulsação em suas mãos, tanto aquela involuntária que vinha do coração, quanto aquela alucinada que vinha do desejo. Por vezes, o homem segurava seu braço, como quem pedisse uma trégua, antes que fosse tarde demais. Mas não demorava muito a se soltar, entregue mais uma vez ao afago que lhe era ofertado.

Instantes depois de alguém passar ao lado deles, rumo ao banheiro, o homem usou suas enormes mãos para direcionar a cabeça do rapaz ao encontro de sua virilidade dura e molhada. Enquanto sentia o inevitável gosto viscoso do sal, deslizando os lábios por uma superfície lisa e suave, e fazendo a língua circular o orifício central, N. S. ponderou se não haviam sido flagrados pelo homem que passara rumo ao banheiro e que, agora, voltava para o seu lugar. Tinha clareza do que significava aquele seu ato, mas a excitação da atividade ilícita tomara conta de si. Estava parcialmente imerso naquelas dúvidas, quando sentiu as enormes mãos do homem empurrando a sua cabeça para baixo. E esqueceu qualquer coisa quando sentiu a sua garganta se ocupar daquele obelisco monumental.

Minutos depois, quando N. S. se virava ligeiramente para o lado e abaixava as calças para sinalizar a sua nova intenção, e o homem corpulento se preparava para atendê-lo, o ônibus começou a reduzir a velocidade. Em um impulso de sobriedade, N. S. puxou as calças de volta para a posição de antes e olhou nos olhos do homem corpulento, que eram ansiosos e suplicantes. Mas decidiu seguir a sua implacável intuição de que deveria encerrar aquela linda aventura naquele exato momento. Pulou para a poltrona de trás, com a mesma agilidade que chegara, deixando para trás um enorme homem corpulento de olhos ansiosos e abandonados.

Da sua poltrona, enquanto recolocava os fones de ouvido e limpava a boca com as mãos, N. S. sentiu o ônibus parar definitivamente e todas as luzes se acenderam, frustrando mistérios e despertando aqueles que tiveram a sorte de um sono tranquilo. Naquele momento, com o coração ainda descontrolado pela excitação dos amores proibidos e com o sangue irrigado pelos hormônios do prazer, N. S. não notou quando os policiais entraram com os cães. Ele só percebeu que algo inusitado acontecia quando sentiu um rabo canino agitado roçando em sua perna e ouviu latidos distantes entre os acordes da canção. Tarde demais, N. S. percebeu que o homem corpulento estava em pé, com uma protuberância ainda visível na região pélvica. Algemado, ele era firmemente conduzido pela polícia e pelos cães ao seu inevitável destino, acompanhado de sua mala repleta de cocaína.

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