Nomes de Usuários (I): Quero Mamar

A luz branca, ligada às tantas da madrugada, inundava o quarto de uma ousadia inútil. Mas a possibilidade do sono já estava invariavelmente encerrada, pois Q. M. haveria de ficar estagnado entre o clique do interruptor e o início do sonho. Mesmo com toda a ansiedade das notificações, o inseto que ocasionalmente voava de uma parede a outra era a alma mais viva do quarto.

O jovem Q. M. queria muitas coisas. Ou desejava, já não se lembrava mais da diferença. E o abismo entre os dois verbos ampliava-se a cada dia. No início, era o verbo. Agora, era passado. Onde um dia buscou propósitos, já não encontrava nem mesmo migalhas. Era tudo muito confuso, especialmente a dosagem das intensidades.

Então, na única ação de verdade daquela madrugada, Q. M. atualizou o feed. Do outro lado do abismo, viu um tórax atraente, com um belo par de mamilos. "Oii, tudo bem?". Com dois is, para parecer diferente. E uma carinha feliz, seria mais simpático. O tórax exigia apenas fotos de rosto e detestava enrolação. Razoável. Mandou sua foto, com o sorriso mais belo que encontrou, ainda que plástico. O tórax leu. Deve ter visto a foto também. Passaram-se alguns segundos. E ele desapareceu, sem emitir verbo algum. 

Mais um bloqueio, quem dera isso fosse um jogo de vôlei. 

Aquela interação parca, que Q. M. haveria de esquecer dentro de poucos minutos, havia sido a gota d'água. Hora de dar adeus ao aplicativo. Por hoje. Amanhã vai ser um outro dia. Apesar de você. 

Do verbo, desfez-se a luz. Sem sono, Q. M. fechou os olhos, com um aperto no coração. 

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"Sol, sereno, ouro e prata, sai e vem comigo
Sol, semente, madrugada
Eu vivo em qualquer parte de seu coração"
Milton Nascimento | Salomao Borges Filho | Ronaldo Bastos Ribeiro