Serra dos Órgãos Contemplativos
Aqui do alto da serra das realizações parciais, iluminado pelo sol poente e acariciado pelos últimos suspiros da estação que nos deixa, eu contemplo em silêncio o horizonte errante dos corações nômades. Uma imagem que, à primeira vista, não parece se mover. Mas que abriga perspectivas e profundidades em cada pixel.
Sem o mesmo brilho da hora dourada, a memória percorre espaços que já habitei, e reencontra sorrisos com que já sorri. Cenas parcialmente nebulosas, distantes do rigor cronológico, elencam o primeiro e o último amor, os amores instantâneos e os inatingíveis, os perdidos e os reencontrados, os sinceros e as ilusões. Enquanto o sol aquece a pele, o coração selvagem é aquecido pela lembrança de amigos e amigas que nos cativamos. As amizades inesperadas, as plausíveis, as óbvias. Aquelas que ofereceram hospitalidade e também colo. Os abraços de duração variável que significam o mundo.
O horizonte indomável também causa arrepios. Afinal, quem tantas vezes já partiu, sabe partir de novo? Nem sempre o hábito justifica a maturidade. E os caminhos ficam cada vez mais sérios. Entre palcos, movimentos e sons das possibilidades futuras, bate em descompasso um coração fragmentado. Suas lacunas crescem a cada nova viagem, pois é preciso deixar micro pedaços cordiais de souvenir. Je me souviens.
Somam-se à anatômica, tantas outras camadas de coração. E o todo não é igual à soma das partes. Cálculos, experimentos, filmes e fotografias não são capazes de capturar a essência do que já passou, nem do que ainda vai chegar. Nem mesmo a radiografia do presente é possível, pois foram registrados diversos casos clínicos de pacientes que deram seus corações de presente para terceiros. Por essa razão e outras também, são imprecisas as verdadeiras coordenadas do coração.
Aqui do alto da serra da apreciação, contemplando as primeiras estrelas e os últimos abraços dessa estação, ouço as batidas firmes dos corações determinados. Em tons esverdeados, entre cores e Coras Coralinas, emerge a sabedoria que não está nos livros. E os corações resignados parecem avisar que as melhores práticas de manejo de amores seguem inalteradas. Deve-se, com todo cuidado, tocar o coração das pessoas. E deixar o seu ser tocado.
O pôr do sol te inspirou muito hoje!
ResponderExcluir