Cenas do interior (II): Fogo

O canto do bem-te-vi anunciou que bem se via o fim de mais um dia na secura invernal do cerrado. Os tons amarelados, terrosos e pesarosos autenticavam a solidão não apenas anunciada, mas voluntariamente escolhida. Como diziam os antigos, o céu tomado pelos tons de fogo indicava que vinha uma noite muito fria, talvez até geada. O que os antigos não faziam era avisar quando se esquecia um bom chapéu em lugar fora de mão. De tal modo que, graças a um lampejo da limitada memória própria, o velho vaqueiro se viu obrigado a descer a colina até a casa antiga, agora abandonada, para recuperar o objeto que lhe faria tanta falta na lida do dia seguinte. Naquela manhã, havia passado pelas ruínas do lugar em que nasceu, cresceu e se fez homem, para alimentar os cães que insistiam em viver junto aos escombros do passado. E, depois de acariciar a barriga do Branquinho, já todo sujo de terra seca, esquecera de recuperar seu chapéu de palha esteticamente questionável, mas completamente funcional, que ficou repousando sobre o que um dia foi um fogão à lenha. Assim, transcorreu um dia inteiro com a cabeça desprotegida, à mostra do Sol e demais intempéries da lembrança. Depois de consertar a cerca que acumulava estragos de tempestades ancestrais, desceu a colina e revisitou o lugar que um dia chamara de lar. Recuperou e vestiu o chapéu com uma praticidade sem cerimônia. De longe, viu os cães recolhidos num canto da antiga dispensa, entre caixotes, panos, botas e teias de aranha. Tentou chamar a atenção dos bichinhos com assovios e estalos, mas só ouviu uns suspiros resignados em resposta, como uma convicção irreversível na potência da inércia. Eles já estavam alimentados e protegidos da noite, ele que tratasse de providenciar o mesmo para si.

Quando saiu das ruínas de sua casa póstuma, o mundo já era outro. A noite havia se instalado como um golpe de estado. Os pássaros foram depostos pelo regime dos insetos noturnos. Naquele instante, o vaqueiro lamentou não ter trazido vela, nem sequer o fósforo de acender fumo. Tudo o que sobrou foi algum resquício de luar e a memória de ter percorrido tantas vezes aquele mesmo caminho. Bastou dar alguns passos em direção à trilheira estreita que subia a colina, entre tufos de capim seco, para sentir o peso do frio anunciado pela aquarela celeste de antes. Sua camisa fina, quadriculada e com gibeira, era adequada para a maior parte do dia, mas não estava à altura da friagem que a noite afrontosa entornou. Sentiu os pelos do braço eriçarem de frio, mas o arrepio que veio em seguida trouxe um incômodo diferente. Arrepio grande é alma penada passando sem pedir permissão, dizia seu pai para manter as crianças na linha. Por via das dúvidas, fez uma nota mental de sua fé e um sinal da cruz na testa, como aprendera com a mãe. E continuou forçando a vista no chão seco, atento à possibilidade de cobras que saíam à noite para fazer a festa. Nessa minuciosa inspeção, notou que o capim seco das margens da trilha ganhava, aos poucos, um novo brilho, amarelado. Quase como se o luar tivesse ganhado cores quentes. E o seu rosto sentiu um leve e inédito rubor, como se a noite fria pudesse experimentar o calor de uma revolução nascente. Mas o seu coração gelou, sem entender.

Ergueu o olhar lentamente. Na continuidade da trilha que precisaria subir até a casa nova, uma imagem inédita fez com que questionasse sua própria sanidade. A distância, a penumbra, o astigmatismo e a vista cansada traziam aos seus olhos surpresos um vermelho-alaranjado indefinido, envolto da mais completa escuridão. A vertigem e o coração descompassado que vieram com a sensação inequívoca de um grande incêndio quase o derrubaram no chão. Mas, aos poucos, o foco corrigiu a percepção e destacou duas grandes bolas de fogo flutuando majestosamente próximas ao topo da colina. Elas pareciam inertes, não fosse por pequenos deslocamentos verticais próprios de quem flutua, bem como a rotação em torno dos próprios eixos, como planetas donos de si. Elas permaneciam naquela dança contida na maior parte do tempo, embora trocassem ocasionalmente de lugar, o que provocava pequenos recuos no vaqueiro, com a ameaça da disseminação do perigo. Mas bastavam alguns segundos para a constatação provisória de que a sua única função parecia ser levar luz e calor ao mundo.

Após alguma reflexão, ousou dar um passo à frente. No mesmo instante, as bolas de fogo precipitaram em direções diferentes, deixando grandes rastros, como cometas. Uma disparou à esquerda, num perigo eminente de levar todo o pasto à perdição. Depois, oscilou para cima, para baixo, para os lados, rodopiou e virou para encontrar a casa nova, como uma criança curiosa. A outra subiu tão alto no céu, que talvez tivesse virado uma estrela. O vaqueiro suspendeu a cabeça, acompanhando-a em seu voo sideral, e tornou a descer quando ela foi ao encontro da irmã. Juntas, rodopiaram até o topo do grande angico que se erguia ao lado da casa nova, onde tempos atrás encontraram a sombra ideal para os mutirões de polvilho. Lá, as entidades incandescentes mantiveram sua posição, embora a dança fosse mais frenética então. Pareciam aguardar qual seria a próxima interação.

Enquanto o deslumbramento paralisante imperava no tempo presente, o velho vaqueiro mergulhou no passado. Lembrou dos causos que ouviu dos antigos, menções à mãe-do-ouro, que teria guiado os garimpeiros até o destino de sua ambição, tanto a riqueza, quanto a morte. Lembrou das histórias de transição para uma mulher de cabelos muito loiros, de uma beleza tão irresistível quanto o próprio fogo. Mas havia também quem achasse que aquilo ia muito além de minerais preciosos. Contavam, nas noites frias de fogueira, que eram almas vagando entre o mundo dos vivos e dos mortos. Justamente por não encontrarem seu lugar, ardiam em sofrimento eterno, numa chama que nunca encontrava sossego. E se fossem um par, como naquela noite fria, o certo é que seria história de amor impossível. O Romeu e a Julieta do cerrado, que escolheram o veneno na vida, para serem eternizados na morte, na combustão perene e enigmática que assombra os raros e merece homenagens na forma de histórias, cânticos e sobremesas. O vaqueiro ponderou, então, se as bolas de fogo também se faziam em descompasso, quando um amor partia precocemente, deixando o outro no frio da solidão austera.

Quando se atreveu a dar outros passos em direção ao seu lar, as bolas de fogo mantiveram a sua posição, como se finalmente assentissem que haviam cumprido o seu propósito, talvez algo poético, como lançar luz e calor sobre a memória. O vaqueiro seguiu a sua caminhada em silêncio, sentindo o calor vindo do topo do angico, cada vez mais próximo. Quando chegou à porta da casa nova, olhou bem para o alto, e contemplou a imagem com afinco, para que a retina a registrasse na eternidade. De mais perto, notou como o fogo parecia surgir do centro de cada uma das esferas e se dissipar para as extremidades, num movimento de eterna e etérea convecção. Notou que um halo azul delimitava as esferas, como uma atmosfera. E, como seres vivos, elas respiravam. E lançavam luz sobre o mundo dos vivos. Fez uma pequena reverência e se despediu em silêncio. Entrou em casa, fechando a porta atrás de si, sentindo o calor esvair-se e o frio recuperar o seu reino indefinidamente. Enquanto se vestia para dormir, ouviu os insetos noturnos, o farfalhar do capim seco, alguns passos e uma batida tripla na porta. Abriu para verificar, sem medo da solidão. Não havia ninguém, nem mesmo resquício das bolas de fogo que o acompanharam até a casa nova. Não se assustou, aquilo era a coisa menos impressionante que presenciara naquela noite. Enquanto se deitava, com lembranças difusas dos cães na casa velha, a satisfação do chapéu recuperado e a vivência da própria lenda, ainda não podia imaginar que, a partir da manhã seguinte, nunca mais estaria sozinho.

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Eu vivo em qualquer parte de seu coração"
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