Nomes de Usuários (VI): Com Local
Após trinta e oito anos de uma vida de segredos e restrições, C. L. adquiriu um emprego estável, um imóvel financiado e a sua primeira D. S. T. Enquanto ingeria a última pílula de antibiótico, por uma combinação de desatenção crônica e conservadorismo hereditário, sentiu uma inexorável necessidade de formular seu propósito de vida. Que fosse uma frase com um único verbo e várias boas intenções. Algo que preenchesse o apartamento novo, repleto de quadros velhos e alguns vazios. Mas adiou o significado maior quando o menor desejo prevaleceu.
No auge da indecisão entre tantas possibilidades catalogadas, escolheu aquela rara combinação de sensualidade pungente e a vaga promessa de carinho. Trocou fotos, flertes e coordenadas. O local seria o seu, com muito orgulho. Guardou o edredom limpo no guarda-roupas, deixando apenas o lençol azul-escuro na cama de casal em que dormia sozinho todos os dias. Apertou alguns botões e ligou a luz vermelha do quarto. Borrifou capim-limão e vestiu entusiasmo. Contou os minutos.
Ele chegou tímido. Não falou quase nada. Na primeira oportunidade, agarrou C. L. com uma voracidade inesperada. Línguas entrelaçadas e concavidades corporais preenchidas se mantiveram mesmo em meio ao vendaval intolerante das posições experimentais. De lado, de cima, de baixo, no chão, em pé, na janela, no inverso, no âmago interno e no universo inteiro. A satisfação desejada veio no silêncio e assim permaneceu no breve e íntimo descanso compartilhado. Despediram-se sem trocar contatos, ambos contando com a sorte de se encontrarem novamente por acaso.
Fechou a porta à sua frente e abriu algumas janelas. C. L. caminhou, curioso, até o quarto que servira de cenário para aquela honorável cinematografia. Abriu o guarda-roupas e apertou outros botões. Parou a gravação em sua recém adquirida câmera espiã de alta definição.
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