Cenas do interior (I): Procissão

A noite se assentou descomedida, indiferente ao tédio inocente do jovem Léo, que trocava frações de tempo por figurinhas repetidas de um álbum antigo. Sua juventude contrapunha o passado como uma faca. Era ainda tão jovem, e já recebia visitas, geralmente nas noites de sexta-feira, do fantasma de uma mulher melancólica. Naquela noite, ele sabia que a mulher de olhos pretos lacrimejantes não viria. Até porque era quarta e ele deixara seu quarto, local em que habitualmente se encontravam em silêncio, e viera fazer companhia para a avó. Desde a sua última queda, quando subira em um banco pouco confiável para alcançar o pote de açúcar no alto do armário e quebrara alguns ossos já tão desgastados (como a vida), a família decidiu que a velha nunca mais dormiria sozinha em casa. Quando os maiores começaram a se cansar da rotina e a se refugiar nas obrigações domésticas e conjugais, passaram a enviar os menores em seus lugares. Léo assumiu as quartas-feiras com gosto, a avó sempre entornava nele a gentileza própria das avós e, ocasionalmente, algumas notas de dez reais.

O garoto começava a recolher a infinidade de figurinhas espalhadas no chão da sala, desistindo momentaneamente da extenuante tarefa de catalogar rostos e emoções, abençoado pelo olhar misericordioso da santa na estante. Enquanto isso, a avó encurvava-se numa cadeira da cozinha, ouvindo um rádio antigo que chiava orações e cânticos, com os olhos fechados e uma mão no coração. O silêncio do interior imperava absoluto, guardando descansos e inspirando mistérios, até que um cão solitário desesperou-se em latir ininterruptamente. Léo olhou em direção à janela aberta, parcialmente coberta por uma longa cortina de renda branca, com buraquinhos sutis que formavam desenhos de folhas e flores. O vento balançava o tecido com leveza, quase um carinho. Mas o cão contrapunha aquela calmaria com uma voracidade audível e impotente. Poucos segundos depois de Léo voltar seu olhar à seleta coleção de figurinhas desimportantes, outros cães da vizinhança fizeram coro ao primeiro, como um sistema de alarme em efeito dominó. O garoto olhou de relance para a avó. A velha permanecia na mesma posição, inabalada pela barulheira, com a sutil diferença de ter agarrado o rosário com um pouco mais força. O garoto se levantou e caminhou até a janela.

A renda esvoaçante acariciou o seu rosto jovem como uma mãe, ativando centros cerebrais de memória que ficaram adormecidos por anos a fio. Mas o alvoroço canino crescia em proporções e ancorava todos no presente, indiferente a lembranças e orações. A rua vazia e fria recebia uma garoa indecisa, como o véu de uma noiva insatisfeita. Os postes de luz solitários iluminavam as gotículas que seguiam curvas e horizontais, como se não precisassem seguir a lei da gravidade. E enchiam de gravidade e mistério o asfalto desolado. Os cães latiam para o nada?

- Sai daí, menino! Isso não é coisa boa de se olhar!

A avó estava em pé, ainda segurando o rosário, com a testa franzida e a boca aberta pelo susto, contemplando a janela com uma preocupação genuína. O rádio fora desligado, e os latidos desenfreados eram o único barulho que existia no mundo. Léo obedeceu sem questionar, olhou de relance para a velha, com um sorriso contido, e caminhou mudo para a cozinha. Não percebeu a avó se benzendo ao sinal da cruz, em direção à janela e à algazarra canina. Segundos depois, ambos contemplavam a geladeira em silêncio, como se o eletrodoméstico guardasse segredos ancestrais.

- Leite...?

- Não pode, você comeu manga ainda agora!

De fato, Léo havia comido umas mangas recém apanhadas da mangueira do quintal assim que chegara na casa da avó. Não resistira ao gosto da infância que guardava com tanto carinho no ainda escasso baú da memória. O garoto supunha que, com o passar do tempo, o baú da memória ia se enchendo de tanta tranqueira, que ficava cada mais difícil encontrar os gostos bons. Pois os seus ainda estavam brilhantes de tão acessíveis e era inútil tentar resistir. Comeu tanta manga que ainda havia alguns fiapos entre os dentes. Mas se esqueceu de que aquilo significava uma renúncia inequívoca ao leite noturno. A avó ofereceu um chá de camomila em substituição, sentindo-se culpada pela segunda contraposição seguida ao neto. E fez uma nota mental de separar uma nota real de dez reais para a manhã seguinte. Ambos trocaram sorrisos conciliatórios e o garoto voltou à mesa do rádio para aguardar o chá. Enquanto a avó ia orquestrando bules e panelas na cozinha em seu próprio tempo, os cães iam diminuindo o volume dos latidos, como se alguém os tivesse chantageado com algo irresistível. Alguns deles pareceram emitir um singelo choro resignatório. E um silêncio denso pareceu ocupar a rua, entrar pela janela e se espalhar como um fluido espesso pela casa fria. A cortina branca pareceu refletir um brilho amarelo. E Léo caminhou até a janela inevitável.

Do outro lado da cortina sensorial, o asfalto ganhava a cor forte da umidade. E, nos postes, as lâmpadas incandescentes piscavam com alguma incerteza. As folhagens balançavam com o vento para assinalar as presenças. Naquele momento, o garoto considerou impossível desviar os olhos do vazio que contemplava com tanto afinco. A fixação num bueiro com tampa metálica, no meio do asfalto molhado, confundiu o pensamento, que decompôs a imagem em várias e causou uma enorme vertigem. Foi quando uma velha maltrapilha surgiu em sua lenta caminhada, passando sobre aquele exato bueiro. A mulher tinha cabelos brancos muito revoltados, usava um vestido preto desbotado e rasgado em alguns cantos, e ia levando um rosário enrolado na mesma mão em que trazia uma vela acesa dentro de uma proteção de plástico, enquanto a outra mão ia sacudindo um ramo de arruda para todos os lados. A mulher ia murmurando alguma coisa inaudível  enquanto dava passos muito lentos em sua procissão de uma pessoa só.

E então, aconteceu mais coisa do que caberia no tempo que transcorreu. Por uma fração de segundo, o garoto teve a impressão de que a mulher do meio da rua olhou diretamente em seus olhos. Uma rajada de vento muito forte entrou sem pedir permissão. Fez bater a porta de um dos quartos, com um estrondo intenso, mas contido. Seu corpo inteiro se arrepiou, dos pelos dos braços, até a nuca. A santa da estante caiu e se quebrou em vários pedaços. A avó largou o bule com água quente em cima da mesa e, no susto, deixou cair a xícara. Então, caminhou vigorosamente até o neto. Fechou a janela logo que chegou, e puxou a cortina para garantir a blindagem do que quer que estivesse lá fora.

- Pelo amor de Deus, é a procissão das almas!

Enquanto juntava as peças da santa quebrada, a avó conclamava a sua fé para explicar coisas de outro mundo. Disse que algo de muito sério devia ter acontecido, para que a benzedeira precisasse conduzir as almas de volta ao cemitério. E que nenhum vivo deveria olhar para coisas como aquela, que não se pode ver. Que eles precisavam rezar muito antes de dormir, para encontrar os bons caminhos mesmo em face do mistério. Entregou um segundo rosário ao neto e olhou profundamente em seus olhos, convidando-o para começar. Enquanto entoava as primeiras palavras do pai nosso, ele percebeu irreversivelmente que os olhos da avó eram os mesmos olhos pretos da mulher que o visitava nas sextas-feiras, embora mais opacos pela idade, e mais determinados pela fé. Mas tinham a mesma melancolia hereditária. Enquanto pronunciava as palavras automáticas da oração, percebeu a dança da cortina de renda, mesmo com a janela fechada, e relembrando dos perigos noturnos da rua deserta que inspiravam cautela e proteção, deixou se instalar o presságio relutante e certeiro de  que aquela seria a última noite de sua avó na face na Terra.

Comentários

  1. Eu com medo de que a avó tb fosse uma das almas tb, muito bom!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

"Sol, sereno, ouro e prata, sai e vem comigo
Sol, semente, madrugada
Eu vivo em qualquer parte de seu coração"
Milton Nascimento | Salomao Borges Filho | Ronaldo Bastos Ribeiro